A lista do Bia

O Biajoni publicou uma lista dos seus filmes preferidos. Demorou mais de 20 anos para ser feita. Ele fala de algo assim desde 2003, pelo menos.

Devo dois filmes ao Bia: um é Dogville, que não fui ver no cinema porque achava que era teatro filmado, mas que assisti por causa de sua recomendação entusiasmada; o outro é “Adaptação.”, cujo final o Bia explicou para mim e me fez ter outra visão do filme. Nada disso justifica, no entanto, o fato de “Casablanca” não estar na lista dele. Uma lista sem “Casablanca”, qualquer lista, seja de quem for, é como pão sem manteiga. É uma tristeza que o filme, que nos anos 80 viu uma espécie de renascimento (talvez em grande parte graças ao “Sonhos de um Sedutor” de Woody Allen), tenha sido relegado ao quase esquecimento neste século. Como é um século burro e idiotizado, talvez seja compreensível.

Sempre achei que não poderia fazer uma lista baseada nesse critério. Tem filmes que eu me recuso a assistir de novo porque tenho medo que percam o encanto, e no entanto gosto muito mais deles do que dos que revejo. Não é o caso, mas quando assisti a “O Campeão” pela primeira vez, caí em pratos, o que era incomum mesmo naquele tempo, porque meu coração sempre foi mais frio do que cu de foca; revi depois e a cena de Ricky Schroeder chorando o pai morto não me dizia mais nada — curiosamente, me emociono sempre que vejo o reencontro do garoto com Chaplin em The Kid. O Bia cita Birdy, um belíssimo filme de Alan Parker; me apaixonei por ele quando o vi, mas revê-lo não fez bem. Talvez por isso eu não tenha coragem de assistir novamente a alguns filmes que me fascinaram: não ouso, por exemplo, rever “A Paixão de Joana D’Arc” por medo de seu impacto — isso num filme que fará 100 anos em 2028 — se perder. Como ele, há tantos.

Por exemplo, vi Sweet November, um desses filminhos mal avaliados que ninguém viu mas que eu adorei, na TV preto e branco de minha avó. Depois de procurar muito consegui achar o filme, mas nunca assisti novamente: ele é colorido, o que destruiria minha percepção original, e para piorar foi conspurcado por uma refilmagem tenebrosa com Keanu Reeves no início dos anos 2000; seria inevitável fazer, a cada minuto, uma comparação entre os dois, e este certamente não é um filme que se presta a uma análise racional.

O Hitchcock favorito do Bia é o “Psicose”; o meu sempre foi “Janela Indiscreta”, embora o tempo me tenha feito apreciar cada vez mais “Ladrão de Casaca”. De Woody Allen o Bia gosta mais de “Memórias”, e eu sempre fui apaixonado por “Manhattan”. Curiosamente, eu esperava a enxurrada de filmes de Brian de Palma, mas não os tantos filmes de Allen.

É uma surpresa concluir que o Bia não é lá grande fã de comédias; Allen não conta, é um tipo sofisticado demais. O Bia, aquele puto, não tem senso de humor. Como é que pode não haver um filme de Chaplin que ele reveja constantemente? Ou Djéury Líus? Nenhum Python, pelo amor de Deus? Para piorar, ele certamente submete a sua criança interior a trabalhos forçados, uma espécie de David Copperfield da sala escura: nenhum desenho animado na lista.

Também lembro do impacto de assistir a Pulp Fiction e sair do cinema tentando compreender o que tinha acabado de ver. Mas ele gosta dos três filmes da trilogia do dólar de Leone, os únicos westerns na lista. Eu sempre digo que “Sete Homens e um Destino” é melhor que “Os Sete Samurais”, mas “Por Um Punhado de Dólares” não é melhor que Yojimbo — mesmo que praticamente tenha fundado um novo subgênero, o spaghetti, do qual não sou grande fã.

Partindo para outro gênero, definitivamente não sou exatamente um grande fã de Watchmen.

Achei engraçado que o Bia tenha saído com medo do cinema depois de assistir a “O Sexto Sentido”; eu saí encantado, repassando várias vezes o filme na minha cabeça em busca das pistas que o canalha do Shyamalan tinha espalhado pelo filme. Esse é um dos filmes a que assisto de vez em quando: eu vejo pessoas mortas, o tempo todo. Quem diz que “Beleza Americana” era melhor que “O Sexto Sentido” é capaz de qualquer atrocidade.

A presença de “Elvis e Madona” na lista é compreensível, porque somos todos humanos, demasiadamente humanos; mas a verdade é que o livro do Bia é muito melhor que o filme. Quando o li, antes de ver o filme, mandei um email para ele com um bocado de críticas; aí vi o filme e percebi o tanto de besteiras que tinha dito.

Falando em filmes brasileiros, descobri que não costumo rever tantos. Há 10 anos redescobri “A Menina do Lado”, e o vi mais umas duas ou três vezes, fascinado com a sua delicadeza; mas é incomum assistir a eles, mesmo sabendo que alguns me encantariam a cada nova visita, como “O Bandido da Luz Vermelha”. Aliás, uns tantos anos atrás eu e o Bia publicamos uma lista de 25 melhores filmes brasileiros; vi agora horrorizado que ela não tem, por exemplo, “Eles Não Usam Black-Tie”. Quero nem olhar os outros absurdos. Quem esculhambou essa lista estava coberto de razão.

Revoltante é apenas a presença de Fletch; dia desses descobri que criei uma memória falsa, porque achava que era o Alex Castro, fã do personagem como eu, quem gostava desse filme equivocado; era o energúmeno do Bia. Pensei tão mal do Alex à toa, e dessa vez injustamente.

Fora isso, muitos filmes de terror, gênero de que não gosto muito. Um bocado de filmes que não vi, alguns de que nem tinha ouvido falar. Agora quero assistir a alguns deles. E um assombro: o Bia assistiu mais de 22 vezes a “Coração Satânico”. Eu podia jurar que o seu filme mais assistido seria algum de De Palma, de preferência um ruinzinho. Por outro lado, é uma surpresa ver que “O Portal do Paraíso”, filme singular porque sua ambição o habilitava a ser realmente grande, mas que fracassa miseravelmente, não está na lista. Agora entendo: o Bia defendia esse filme só da boca para fora.

Depois de ver a lista, meu primeiro pensamento foi: eu jamais poderia fazer uma lista com esse critério porque só revejo comédias românticas, gênero absolutamente desvalorizado pelo qual sempre tive uma queda. Notting Hill, “Em Algum Lugar do Passado”, Melody, Harry & Sally, essas coisas. Acho que é por isso que, quando eu tinha uma lista de 100 melhores filmes, o Bia reclamava que era uma lista acadêmica, no mínimo racional, e ele preferia uma lista mais pessoal — como essa que ele finalmente fez. Eu achava que ele tinha razão, mas dane-se se você tem razão, e dava o dedo para ele.

Mas depois de ver a lista do Bia fui pensando nos tantos filmes que revejo com frequência ao longo da vida. Faroestes como “Rastros de Ódio”, “Os Brutos Também Amam”, “Sete Homens e um Destino” e “Era Uma Vez no Oeste”. Noirs como “Relíquia Macabra” e The Naked Kiss. Qualquer coisa com Humphrey Bogart, Marlon Brando, Chaplin e James Dean. Uns tantos italianos como “A Terra Treme” e “Ladrões de Bicicleta” e “Milagre em Milão” e “Cinema Paradiso”. L’Argent de Poche. O bom cinemão hollywoodiano de “…E o Vento Levou”, “Os Dez Mandamentos” e “Ben-Hur”.

Agora, graças à lista do Bia, e usando esse critério, percebo que a minha era, sim, muito, muito pessoal. Não interessa se são óbvios. É desses filmes que eu gosto de verdade — desses e de Notting Hill. Agora estou em paz comigo mesmo.

Oscars 2025

Preciso confessar minha má vontade em assistir a Wicked: Part I. Preciso confessar também que, quando isso acontece, o que me move é a esperança de que o filme me surpreenda e mostre que eu estava errado. Wicked não faz nada disso; é só o filho bastardo do Leão Covarde e Hermione Granger, coleção tediosa de clichês de um estilo de cinema americano que se esgotou na década passada, da trilha sonora ao desbarato de CGI, da fotografia de manual à exaustão de um mundo de fantasia obediente ordenhado sem cessar desde o início do século. É a Universal entrando de sola na prática da Disney de raspar o tacho de produções antigas, e o resultado é um filme quase impossível de assistir até o final. Para piorar, já anuncia de cara que vem outro por aí. Perderam completamente a vergonha. Uma colonoscopia é um programa mais agradável.

Dune: Part 2 é a conversão final de Hollywood ao sistema de sequelas (sic) que se tornou a norma na indústria. O primeiro era Star Wars escrito da maneira certa; este é só uma continuação. Mas que ninguém espere “O Poderoso Chefão II”, que isso ele não é. É por essas e outras que a Academia devia perder a vergonha e admitir séries em sua lista de premiações. O resultado seria melhor — talvez, talvez — e faria mais para tentar salvar o cinema do que a briga por estreias em salas de exibição.

Apesar de ser estranho um filme sobre a Igreja Católica sem menininhos com a boca cheia — de hóstias, meu filho, de hóstias —, Conclave é uma fita bem conduzida, correta. Também é conservadora como a Santa Madre, mesmo quando aposta em uma situação delirante como um papa transgênero do terceiro mundo, e se destaca, mesmo, unicamente pela atuação soberba e contida de Ralph Fiennes e por um mistério ainda mais indecifrável que a Santíssima Trindade: a indicação de Isabella Rosselini ao prêmio de melhor coadjuvante. É melhor que aquele outro filme sobre papas dirigido pelo Fernando Meirelles — pelo menos aqui o cinegrafista não sofre do mal de Parkinson —, mas no fundo é medíocre e conformista. A ele resta rezar dez Ave Marias e cinco Pais Nossos e ir com Deus.

Anora é “Uma Linda Mulher” misturada com Tangerine, do próprio Sean Baker. Não é ruim de verdade, tampouco é bom, e em alguns momentos lembra “Triângulo da Tristeza”, com o mesmo discurso elitizado, simplório e míope sobre a luta de classes. Se pretende mais profundo do que aparenta à primeira vista; como nem sempre as aparências enganam, o filme é raso, mesmo. Aparentemente é o favorito para ganhar o Oscar, compreensível quando se lembra que “CODA” ganhou há alguns anos. Ao menos tem uma grande qualidade, e isso é inegável: tem peitinhos, bons peitinhos. Peitinhos andavam em falta nas cerimônias do Oscar nos últimos anos. Já é alguma coisa.

A Complete Unknown é uma espécie de Bohemian Rhapsody sobre um artista mais importante e realmente revolucionário. No fundo é óbvio, previsível, como virtualmente toda cinebiografia. Mas tem o clima certo, Chalamet personifica um bom Dylan, o diretor faz as escolhas certas dos pontos realmente significativos na primeira parte da vida de Dylan e conta direito a sua história, embora sem nada de realmente brilhante. Para fãs do bardo como o autor destas maltraçadas, é muito interessante; como cinema, não tem absolutamente nada demais.

Todo mundo já viu Ainda Estou Aqui, então todo mundo tem sua opinião formada. É bom cinema, um concorrente digno com grandes qualidades, da direção de arte esmerada à fotografia elegante. É também uma cinebiografia que obedece fielmente aos princípios básicos do gênero, e no fim das contas é carregado pela interpretação estarrecedora de Fernanda Torres, de longe a melhor entre as indicadas; além disso, tem mais significado para brasileiros que para espectadores alheios à nossa realidade e a nossa história. O Brasil já concorreu com filmes melhores — “Central do Brasil” e, principalmente, “Cidade de Deus” — e piores — “O Quatrilho”. Não tem (ou não deveria ter) a mínima chance, claro, e se ganhar o Oscar de melhor estrangeiro vai ser apenas por causa da campanha gigantesca feita pela distribuidora.

Nickel Boys é um filme sobre a experiência negra em uma América racista, segregada e violenta. É o de sempre: a tese e a denúncia validadas pela experiência individual. Mas não é seu panfletarismo o problema aqui: agora essa história é contada por câmeras subjetivas que, se se elevam acima de experiências similares anteriores, ao mesmo tempo fazem com que suas quase duas horas e meia pareçam durar muito mais tempo. No fim das contas, é mais ou menos o mesmo filme a que assistimos de vez em quando, e não fosse a sua ambição formal, estaria mais baixo nesta lista.

Misture “O Retrato de Dorian Gray” e “A Coisa” e “A Mosca” e “Carrie, a Estranha”, chame a Hammer para produzir e você terá The Substance. É um bom filme, em que pese toda a sua previsibilidade, dirigido com estilo e visão por Coralie Fargeat. E talvez o melhor dele seja a falta de vergonha e pudor em assumir o final mais absolutamente escatológico e alucinado e demente que já se viu em um concorrente ao Oscar de melhor filme. Quer dizer, o final e o fato de também ter peitinhos, embora os de Demi Moore, que em primeiro lugar oferece uma grande atuação, já tenham visto dias melhores.

The Brutalist bem poderia se chamar “O Brutalizado”, e não deixa de ser mais um daqueles exercícios de masoquismo judeu como “A Escolha de Sofia”, “A Imigrante” ou o belo “O Filho de Saul”, que buscam convencer o mundo de que o sofrimento ainda é propriedade exclusiva do povo hebraico. É mais longo que o Antigo Testamento e igualmente fantasioso, porque quem anda tomando no cu hoje em dia não são os judeus, são os palestinos. E diante disso, é impressionante que o resultado seja o filme magnífico que é. The Brutalist conta sua história de maneira excepcional, com uma fotografia excelente, direção soberba e grandes interpretações, especialmente de Adrien Brody. Um dos dois melhores concorrentes ao Oscar — e se alguém disser que é o melhor, eu não vou discutir.

O pachequismo tupinambá (e o panchismo mexicano, para sermos justos) escolheu Emilia Pérez como seu arqui-inimigo e se empenhou naquilo que os gringos chamam de hatchet job, algo quase inevitável em plagas onde uns oram para pneus e outros fazem de “Ainda Estou Aqui” o encarregado do resgate impossível de uma nação estupidificada e dividida. Acontece que “Emilia Pérez”, que não tem nada com isso, é de muito longe um dos dois melhores entre os concorrentes ao Oscar, e só ganha de “O Brutalista” por sua inventividade e sua contemporaneidade. É duro, é lírico, com reviravoltas surpreendentes e letras sublimes em vários momentos. Um belíssimo filme sobre o amor, sobre a natureza humana, sobre a inexorabilidade do destino. E no mínimo serve para nos lembrar que, como dizia um ensaio clássico de Gore Vidal, “sexo é política”.

A loura, de volta

Dorothy Parker voltou a ser publicada no Brasil.

Era absurdo, mas até poucos meses atrás não havia nenhum livro de Dorothy Parker em catálogo por estas bandas. A Companha das Letras relançou “Big Loira e Outras Histórias de Nova York”. Se alguém tem dúvidas de que o livro é excelente, basta olhar uma das pouquíssimas resenhas publicadas por leitores no site da Amazon:

Os contos me deixaram meio deprimida. Ficaram datados: falam de mulheres e homens que bebem, que traem e que não têm muitos objetivos na vida. São deprimentes e deprimem o leitor/ leitora. Talvez na época em que foram escritos refletissem uma realidade que precisasse ser conhecida e discutida. Me decepcionei, infelizmente.

Se há recomendação melhor para que se compre e se leia o livro com urgência, eu não conheço. Só posso dizer que fico feliz por saber que pessoas que bebem, traem e não têm muitos objetivos na vida são coisa do passado, e triste por ver como o nível intelectual da Tupilândia decaiu tão absurda em umas poucas décadas.

Parker é uma das grandes escritoras americanas do século XX, ponto. Não conheço sua obra poética. Conheço a contista, que vai muito além da crônica dos roaring twenties. The Portable Dorothy Parker, uma coletânea alentada de seus melhores contos, é um daqueles livros essenciais na literatura americana. Seus contos têm uma causticidade irônica que disfarça uma capacidade extrema de ver o tragicômico nas pequenezas da vida. Há uma ironia e uma melancolia extrema em seus contos, mas há também uma comiseração e empatia em relação aos seus personagens, talvez condescendente, mas sempre humana.

Por isso era um absurdo que não houvesse nada dela no Brasil. Já tinha havido. No final dos anos 80, foi lançado aqui “Big Loira e Outras Histórias de Nova York”. Era uma coletânea de alguns contos da moça, traduzida pelo Ruy Castro.

Eram tempos instigantes, aqueles. A Companhia das Letras era então uma editora jovem e ousada. E em torno dela circulava uma geração, então na casa dos seus 40 anos, que tinha sido formada nos anos 50 e 60, quando a indústria cultural americana impunha um novo padrão ao mundo. Gente como o próprio Ruy Castro, Sérgio Augusto, alguns outros. Graças a esse ambiente, a literatura americana do século XX, provavelmente a mais rica de seu tempo, foi publicada extensivamente pela editora: como Parker, Cheever, Bellow, Bashevis Singer, Malamud, Doctorow.

Parker é uma das melhores dessa safra, competindo apenas com Cheever.

A nova edição troca “loira” por “loura”, não sei se por imposição da nova ortografia ou por simples evolução do vernáculo. A nova capa é adequada, embora a original fosse mais sofisticada; a nova, sei lá por quê, me lembra os livros da Codecri. Tampouco sei se a tradução é a mesma. O que sei é que, seja como for, vale muito a pena.

Sobre livros

Parei de ler o conto de Tchekov porque naturalmente lembrei de John Cheever, e consequentemente lembrei de Dorothy Parker — mas agora a lógica é só minha porque descobri um e outra na mesma época. Coloquei o livro de lado, o cinzeiro na barriga e fiquei olhando para as vigas e ripas do telhado que tive que fazer e refazer porque primeiro reutilizei as telhas antigas da casa velha e elas eram ruins. Fidel está deitado ao pé da cama, Ceci sempre agoniada entra e sai do quarto, esperando acordar meu sobrinho que dorme no quarto ao lado.

No que penso é simples, penso nisso de vez em quando.

Tenho a impressão de que as pessoas estão lendo de maneira diferente. Talvez seja a minha ancianidade, a minha impaciência, ou a minha intolerância que não para de crescer, e então não vejo mais o que está à minha volta; mas leitores como os que eu via, que se aproximavam de livros como quem encontra fortuitamente um desconhecido na rua, esses eu não vejo mesmo. Vejo gente que descobriu um autor qualquer, normalmente menor, na universidade, e fala dele como velhinhos falam de Joyce ou Mann, ou um grupo de autores, quase sempre contemporâneos ou defuntos ainda frescos, porque eles são mais palatáveis a uma cultura imediatista, excessivamente abundante, uma corrida de ratos em que já não se sabe qual o prêmio, mas se sabe que não dá para deixar de correr.

Nas internets não vejo muitas conversas sobre literatura que não façam parte de guetos universitários, onde meninos são guiados pelos caminhos de escritores que interessam aos seus professores e seus artigos publicados em revistas que ninguém lê; parece haver mesmo uma competição cujas regras só eles conhecem, uma busca por autores que eles conheceram antes que o resto daquele seu pequeno mundo — “antes que fosse modinha”, como dizem em seu dialeto —, que possam lhe dar uma certa primazia no conhecimento e que reflete uma certa obsessão permanente pelo novo que vai lhe fazer diferente e talvez melhor, como se um livro fosse um vestido de costureiro chique.

Vejo mais frequentemente conversas sobre livros, mediadas pelo consumo e pelo mercado, sobre edições bonitas com todos aqueles truques supérfluos que as editoras usam para tornar uma sequência de folhas de papel sujas de tinta em um objeto mais desejável pelo seu valor como objeto do que pelas palavras e frases que formam, como letras grandes e papel com gramatura maior e capas duras, sempre mais respeitáveis que brochuras.

Aí eu lembro que literatura também é moda. Nos anos 80, uma geração americanófila exercia uma influência enorme; isso mudou, se tornou mais diverso, paradoxalmente mais rico e menor; mas ainda assim é moda. A nova moda agora são autoras negras, parece. Amanhã talvez sejam índios, eu não sei.

Lembro também que houve um tempo em que havia uma certa unidade em torno de livros, que a internet matou. Graças a um ecossistema que incluía jornais e revistas, essas coisas que ninguém mais compra, alguns livros extrapolavam os limites do mercado, vendiam tiragens bem maiores que as três mil por edição de praxe. E esses livros ajudavam a criar elos em comum entre as pessoas. De memória, é fácil lembrar de tantos: “Vastas Emoções, Pensamentos Imperfeitos”, “Estorvo” numa resenha magnífica de Roberto da Matta na Veja (ou será que minha memória me trai mais uma vez?), “Perestroika”, “Tudo Que É Sólido Desmancha no Ar”, “Personas Sexuais” de uma Camille Paglia que o identitarismo enxotou da moda. Tudo isso acabou. Alguns livros, por suas qualidades, conseguem superar seus guetos, mas ao mesmo tempo porque se adequam a uma percepção cada vez mais “nidificada” do mundo. “Torto Arado” talvez seja o melhor exemplo: se destaca ainda mais por outro elemento que não suas qualidades óbvias, mas porque está perfeitamente inserido naquilo que a nova elite intelectual quer ouvir e permite dizer.

Por isso penso no meu sobrinho que Ceci está esperando acordar, que parece saber tantas coisas, muito mais do que outros meninos de sua idade, mas que no entanto não parece ler tanto; e então fico com a impressão de que esse conhecimento vem pelo YouTube, ou de alguma outra rede social, e a maneira como se relacionam com esse conhecimento é diferente, e a própria natureza desse conhecimento é diferente. É um mundo diferente o que se forma à minha frente. Então talvez seja por isso que não vejo as pessoas falando de Cheever, nem ostentando o sorriso amargo que um conto de Dorothy Parker deixa na cara das pessoas.

Ontem matei uma aranha marrom antes que a curiosidade de Ceci a fizesse ser picada; e lembrei que se contasse isso nas internets algum desses moços ou moças que não conseguem mais viver sem tentar impingir aos outros suas boas intenções telúricas iria dizer que não se deve matar aranhas, porque elas fazem parte do ecossistema e são criaturas de Deus iguais em direitos a mim e superiores ao mendigo sem as duas pernas, porque comem isso e aquilo, sei lá que diabo elas comem.

Eu mato, mato, mato com gosto. Mais gosto, só em matar lacraia, porque eu já fui picado por uma e o seu veneno, em vez de me transformar no Homem-Lacraia porque eu não fui criado por Stan Lee, fez de mim o Psicopata do Piolho de Cobra, um vingativo raivoso que começa a tremer de ódio e a espumar pela boca quando vê uma lacraia.

Mas a conversa era sobre livros, acho. Ou não, não sei mais. Retomei o conto de Tchekov, que é o melhor que eu podia fazer.

Playboy

A primeira Playboy que comprei foi a de novembro de 1984, com Christiane Torloni na capa. Mas não foi por causa dela: foi pela entrevista com Paul e Linda McCartney. Deve ser por isso que, até hoje, uma das coisas que me irritam é quando riem descrentes de quem diz que “comprava a Playboy pelas entrevistas”. Pelo menos a primeira que comprei, foi.

Eram tempos diferentes: eu era um recém-adolescente mas o jornaleiro não via nenhum problema em me vender uma revista expressamente proibida para menores de 18 anos. Não havia, mesmo. Talvez porque a ditadura e a Censura estavam chegando ao fim e o país se sentia um pouco mais livre, respirando melhor; mas principalmente porque o Brasil de 40 anos atrás era menos pudibundo, menos americanizado, e todo mundo parecia ter uma relação diferente com a imagem do corpo, especialmente com a nudez, e era honesto o bastante para preferir a beleza. Basta lembrar os biquínis daqueles tempos, os fios-dentais, os asas-deltas, lembrar que nos comerciais de então a nudez era farta e comum. Isso ia até o exagero: sei de um comercial dos jeans Villejack que sugeria nada menos que uma suruba. Procura no YouTube que você acha.

Mais tarde, início dos anos 90, assinei a revista em alguns momentos de mais dinheiro. Obviamente, as moças belas em suas páginas eram um grande atrativo — quem não ficou fascinado pela Luciana Vendramini ou pela Andréa Guerra ou pela Vanusa Spindler, quem? É uma questão estética: para héteros ou gays, eu tenho certeza de que o apelo da Playboy era universal porque, como costumávamos dizer a quem ria de nossas desventuras, “mulher bonita até gay come, quero ver é ser macho pra pegar os urutaus que andei pegando” —, mas as entrevistas eram sempre uma parte importante. A entrevista de Tim Maia, por exemplo, é inesquecível.

Na mesma época um amigo que casou com uma mulher ciumenta me deu sua coleção, cobrindo boa parte da segunda metade dos anos 80. Revistas que depois desapareceram, infelizmente. Mais tarde, cheguei a ter um CD-ROM com todas as entrevistas da Playboy americana, das quais, infelizmente, li poucas antes que ele sumisse pelo mundo. E não lembro com muita certeza, mas não duvido que tenha sido numa entrevista à Playboy que Sandy & Júnior declarou a possibilidade de “prazer anal”; o fato de isso ter causado algum rebuliço então é uma mostra de como o mundo mudou: recentemente a Xuxa andou dizendo que gosta de sexo anal e de beber certas excreções e ninguém ligou.

Foi também no início dos anos 90 que comprei a primeira Playboy americana e descobri que era uma revista muito melhor que a brasileira. Enquanto esta me parecia destinada a punheteiros que sonhavam com mulheres e bens que jamais poderiam ter, a americana tinha uma postura política e um engajamento que refletia a necessidade ao combate ao puritanismo típico da gringolândia que, infelizmente, se espalhou pandemicamente pelo mundo com a internet. É bom não esquecer nunca que foi na Playboy americana que Gore Vidal publicou um artigo antológico, “Sexo é Política” (publicado aqui no livro “De Fato e de Ficção”). A gente quer putaria, nego, não fingir que é rico. Além disso, enquanto a daqui se dava ares de revista pra gente rica, a de lá não precisava disso. Outra diferença cultural importante era que a daqui se especializou em estrelas da nossa dramaturgia, enquanto a de lá se baseava em puta, mesmo — e eram mulheres de plástico, que eu nunca entendi como podiam motivar algum tipo de desejo; esses americanos são uns loucos.

O tempo passou e a revista ficou cada vez mais chata. E olha que, muitas eras atrás, cheguei a namorar pouquinho tempo uma moça gente boa que saiu sem destaque em uma de suas páginas. As vendas caíam e ela já não podia pagar o que estrelas exigiam. Não sei se por reflexo disso ou se porque o mundo foi mudando e mudando, as entrevistas ficaram mais simplórias. A internet, a consagração da autoexposição pessoal, a abundância de pornografia fácil e barata acabaram tornando a Playboy redundante, da mesma maneira que acabou a velha e boa coluna social. E em algum momento do século XXI ela anunciou que ia fechar e nunca mais ia deixar seus leitores na mão. Não me importei muito. A Playboy era, havia tempo, uma sombra do que tinha sido.

Mas o passar do tempo sempre gera alguma nostalgia.

No fim do ano passado apareceu um site chamado Inside Playboy Brasil que se dedicava a recuperar o material publicado na Playboy. Publicou, por exemplo, entrevistas maravilhosas com Chico Buarque, Caetano Veloso e Chico Anysio, todas da década de 70. Agora, depois de alguns meses, fui procurar pelo site e não achei. Desapareceu. É uma pena. Talvez exista alguma coisa no Internet Archive, eu não sei. Mas é um mau sintoma que sites como esse desapareçam assim. É como se o mundo perdesse um pouquinho da classe que lhe restava num mundo de OnlyFans.

Traduttore… Tradittore

A biografia de Walt Disney por Neal Gabler chegou há algumas horas. A tradução é de Ana Maria Mandim. O livro está na terceira edição. E está me lembrando também de algo que eu sempre disse: que o mais importante no ofício do tradutor não é tanto conhecer a língua de que se traduz, mas a língua para a qual se traduz.

Quando o livro menciona a fazendinha em Marceline, Missouri, em que Walt passou parte de uma infância idílica e que transformou no ideal americano de milhões de crianças em todo o mundo, é assim que o trecho é traduzido: “Havia raposas, opossums, guaxinins.” Uma nota da tradutora explica o que é um opossum:

Tipo de marsupial, que não é morcego, com aparência de um rato de pelo longo, encontrado na América do Norte, ao norte do Rio Grande.

Ainda estou em dúvida sobre o que a moça quis dizer: não sei se fico aliviado por saber que morcegos não são marsupiais, ou apavorado ao descobrir que o morcego é um marsupial, mas não é um opossum.

Essa mixórdia seria evitada se a moça soubesse que opossum tem tradução simples e fácil para a última vagaba do Lácio: gambá. Tudo bem que não traduzisse por saruê ou timbu, termos a que estou mais acostumado porque são nordestinos. Mas é gambá, diacho, bicho que a gente vê o tempo todo em quintais e esmagados em estradas. Um opossum é tão gambá quanto um raccoon é guaxinim — apenas são espécies diferentes: o único gambá da América do Norte é o gambá-da-virgínia, assim como o guaxinim do Norte é o raccoon e o nosso é o guaxinim ou mão-pelada. Se traduziu raccoon por guaxinim, que traduza opossum por gambá porque a lógica é a mesma, e está tudo certo e a gente segue a leitura em paz.

Mas não, não fez isso e hoje vou ter pesadelos com morcegos marsupiais revoando meu telhado e carregando morceguinhos vampiros em sua bolsa.

O mais irônico é que tudo isso eu aprendi assistindo a “Disneylândia”, nos meus verdes e tão distantes anos.

Mas a coisa não termina aí.

A tal fazenda “era, nas palavras da tia de Elias, ‘um lugar muito boíto’”. A nota da tradutora explica:

No original, a frase é “very hansome (sic) place”. O correto seria “handsome”.

Eu até posso ouvir Elvis ou Carl Perkins falando hansome. Mas ninguém neste país assolado por Pablo Marçal fala “boíto” no lugar de bonito, com exceção de Didi Mocó muito tempo atrás. Traduzisse por “bunito”, tradução muito mais aproximada do contexto original, e não precisaria sequer de nota.

Tudo isso é na página 26. Tenho mais 700 pela frente. Que Deus me proteja.

Ópera de Borracha

Não sei como as pessoas deixam isso passar batido e ficam aclamando injustamente o Sgt. Pepper’s Lonely Hears Club Band como o primeiro álbum conceitual dos Beatles, essas coisas aí que todo mundo repete que nem papagaio.

Porque o verdadeiro ábum conceitual da banda veio muito antes. É o Rubber Soul. É tudo tão óbvio.

O álbum começa com o sujeito recebendo um convite pra dirigir o carro de uma moça que quer ser uma estrela. Mas ela não tem carro; aí ele vai até o apartamento dela e toca fogo em tudo, e diz que ela não o verá mais, porque ele é um sujeito fazendo planos de lugar nenhum. Por isso ela vai ter que pensar por si própria: e se quiser ser livre, que diga a palavra “amor”: porque ele a ama, a ama, a ama, é tudo o que ele tem a dizer. Então pergunta o que é que está se passando na cabeça dela, e reclama que ela é o tipo de garota deixa os outros para baixo e se sentindo otários, mas ele está sacando a dela — e ainda assim, de todos os amigos e amantes, ninguém se compara a ela. Por isso ele pede para ela esperar até que ele volte, e escreva seu número no muro de sua casa porque se ele precisar de alguém, é nela que ele vai pensar. Mas que ela tome cuidado: ele prefere vê-la morta do que com outro homem, e se ela aprontar alguma, é melhor correr para não morrer.

Se isso não é uma ópera italiana, eu não sei o que é.

Remakes

Tem uns tantos filmes aí que eu gostaria que fossem refilmados. São aqueles que poderiam ter sido muito maiores do que foram, mas por uma ou outra razão, ficaram aquém do que poderiam, quando menos depois que alguns anos se passaram e pudemos ver como resistiram à ação sempre deletéria e canalha do tempo.

Highlander
Este é um filme redondo. Mas tem os defeitos da direção publicitária que era moda em sua época. Eu refaria o filme basicamente para corrigir isso, aproveitar a evolução tecnológica que sempre faz bem a filmes de ação, mas também para aproveitar a mesmice diretorial e fotográfica destes tempos novos . Mas como estaria com a mão na massa, aproveitaria para fazer um vilão menos caricato, mais sofisticado. Daria mais densidade dramática à relação com Hannah, a paixão não correspondida da menina salva não mais na II Guerra, mas no Vietnã — ah, tempo, esse infeliz que não para de passar. E elencaria George Clooney como Ramirez e Tom Hardy como McLeod.

 

Leon, o Profissional
Ao contrário dos outros filmes incluídos aqui, este é um excelente filme, bem feito, com boas atuações de Jean Reno e Gary Oldman e uma estreia estelar de Natalie Portman. Luc Besson tem altos e baixos em sua carreira, mas este é, definitivamente, um de seus melhores momentos. Eu na verdade refaria apenas uma cena do filme: aquela em que, ensinando Mathilda a se tornar uma assassina, Leon a faz atirar em um sujeito com uma bala de paintball. Eu os faria usar balas de verdade, mostrando o pouco valor dado por eles à vida humana. Mas no fundo o que eu queria mesmo era fazer, daqui a uns dez anos, uma continuação do filme. Faria da própria Portman uma assassina cinquentona, gasta pela vida, cínica, e a colocaria num relacionamento semelhante ao que ela teve com Leon. Mas agora ela destruiria o adolescente. Eu sou mau também.

Grease
Já escrevi aqui sobre a minha decepção ao ver o filme depois de ler o livro escrito a partir dele. A injúria foi agravada pela direção de Randall Kleiser, que levou para a telona os vícios dos telefilmes que fazia, com direito a vinhetinhas musicais entre uma gag e outra. Eu faria um filme a partir do livro de Ron de Cristoforo, uma comédia menos musical, com maior nexo narrativo, reforçando o deboche carinhoso com que ele revisita os anos 50. Seria um filme definitivamente informado pela aura do seriado “Anos Incríveis”, uma comédia sem nenhuma pretensão de ser engraçada, porque a vida já era engraçada o suficiente.

A Lista de Schindler
Nesse caso eu não refaria o filme, eu apenas reeditaria o seu final. 30 anos se passaram e ainda não me conformei com o final piegas e melodramático com que Spielberg conspurcou o que teria sido o seu melhor filme. Meu Schindler continuaria interesseiro e pragmático até o final. Sem chororô.

5% dos filmes nacionais
Uma das grandes verdades da vida é que praticamente todo filme brasileiro poderia ser refilmado. Mas 90% deles, talvez mais, não valem a pena, nunca valeram, em que pesem as perversões do pessoal do “audiovisual”, que elogia às escâncaras coisas que numa família de bons costumes jamais seriam mencionadas em voz alta perto da crianças. Outros 5%, talvez menos, perderiam tudo se fossem retirados de seu momento histórico, ou mesmo artístico: um filme como “Viagem aos Seios de Duília”, que não chega a ser magnífico, me pareceria mais pobre e sem sentido sem a sua fotografia. Mas há uma série de filmes que são quase bons, especialmente entre as pornochanchadas dos anos 70, e que se beneficiariam de maior aprumo técnico.

Há outros filmes, claro, que não consigo lembrar agora.

Bizz

Muitas, muitas eras atrás o Marcus ficou puto comigo porque falei mal da Bizz. Eu disse que ela era “uma das revistas mais medíocres e provincianas da história do país, onde músicos frustrados escreviam sob pseudônimos resenhas sobre suas próprias bandas, que só eles ouviam, e se deliciavam em anunciar bandas de um buraco qualquer da Inglaterra, que ninguém jamais ouviria.”

Com elegância, o Marcus apontou qualidades na Bizz que eu, claro, não quis mencionar. A principal era o fato de a revista ter sido a mais importante formadora de público roqueiro dos anos 80, a triste geração de que o Marcus e eu fazemos parte.

Lembrei da revista dia desses porque achei nos meus arquivos um documentário em vídeo chamado “Bizz – Jornalismo, Causos e Rock and Roll”. Já tinha visto, mas tinha esquecido porque ele é francamente ruim: mal concebido, mal dirigido, mal fotografado, mal editado. Mas oferece ao menos um vislumbre do que foi a revista, porque traz depoimentos em primeira mão de gente que participou de sua trajetória, ainda que em entrevistas mal-conduzidas.

Em retrospecto, a Bizz chegou um pouco atrasada ao cenário, porque havia pelo menos três anos que o rock brasileiro se consolidava no alto das paradas de sucesso. Mas esse atraso era apenas relativo. O Rock in Rio tinha sido, como dizem, um divisor de águas. Durante todo o final de 1984 a Globo tinha exibido, diariamente, o “Minuto do Rock”, num esforço para garantir o seu investimento como patrocinadora do evento, e começando um processo de doutrinação que atraiu muita gente — como eu. Havia um alvoroço generalizado, que se combinava com a expectativa pelo fim da ditadura. O festival coincidiu com a eleição de Tancredo Neves, foi um sucesso e em 1985 o rock era a trilha sonora do país.

Na época, pululavam nas bancas, especialmente do sudeste, uma infinidade de revistas normalmente malfeitas e sempre sem distribuição nacional adequada. Sem ter conhecido a Pop, revista da Abril que, pelo que deduzo das capas, era uma mistura de revista Bizz e Capricho, as únicas publicações a que o país tinha acesso regular, se não me falha a memória ruim, eram a Roll e a Somtrês.

A Roll era uma revista menor e malfeita, mas dedicada exclusivamente à música. A Somtrês se dividia entre música e aparelhagem de som. De modo geral era uma revista mais sólida, e fez algumas boas reportagens. O problema é que ela era velha, feita para anciãos esnobes que podiam gastar dinheiro; não tinha como público-alvo o jovem urbano roqueiro. Ainda assim, muitos dos críticos que mais tarde chegariam à fama de nicho da Bizz já estavam ali: José Emílio Rondeau, Roberto Muggiati, Maurício Kubrusly, talvez a Ana Maria Bahiana, uns tantos por aí.

A revista que a Abril lançava em agosto de 1985 finalmente mirava esse espaço específico. Com um projeto gráfico inspirado na estética new wave, demorou alguns meses até ela consolidar um formato próprio; em seus primeiros números, trazia seções sobre cinema, instrumentistas, até cifras de músicas, coluna de fofocas e de heavy metal.

O sucesso da revista foi absoluto. Até hoje, muita gente escreve showbiz com dois ZZ, por causa de uma de suas seções. E então é aquilo que o Marcus disse: a revista introduziu a abordagem cultural paulista ao resto do país com uma eficiência maior que a Globo, por exemplo — que, aliás, nunca escondeu o seu carioca way of life. Atenta ao que acontecia lá fora, especialmente na Inglaterra, e tentando atender a vários nichos da cultura jovem urbana, a Bizz inegavelmente aproximava os grotões do mainstream paulista.

Havia um descompasso enorme. Um exemplo bobo: até ler a matéria de capa da edição de estreia, eu não fazia ideia de que Bruce Springsteen fazia tanto sucesso, ou que seus shows duravam quatro horas. Foi o não reconhecimento desses aspectos positivos que irritou o Marcus, e isso é compreensível.

Porque com todos os defeitos, a importância histórica da Bizz é inegável. A época de ouro do rock brasileiro foi o último momento em que a música conseguiu unificar e dar voz a uma geração inteira: depois disso veio o caos, a fragmentação em nichos, isso que a gente vê hoje e que nos surpreende a cada dia, toda vez que descobrimos que um sujeito de quem nunca ouvimos falar, e cuja música é feita inteira no computador, faz shows para dezenas de milhares de pessoas que cantam suas letras inanes do início ao fim. Musicalmente, a sensação que se tem é que chegamos ao apocalipse. O cenário da música brasileira nunca foi tão ruim. Diante de quatro tão tétrico, fica mais fácil achar que a Bizz eternizou em tinta impressa uma época que hoje parece dourada. De maneira às vezes deturpada, muitas vezes canalha, ela foi uma coadjuvante importante nesse processo de uniformização cultural de que, às vezes, tanta gente sente falta, eu inclusive.

Mas importância histórica o nazismo também teve. A Bizz trazia também o que São Paulo tinha de pior: um colonialismo cultural abjeto, uma ignorância profunda acerca do que está além de seus horizontes e que, não por coincidência, é talvez a característica definidora da “crítica de rock”, de Christgau a Lester Bangs. E a canalhice pura e simples, descarada, sem vergonha. E a inconsistência, a falta de um padrão estético claro e honesto, uma glorificação da subjetividade quase absoluta. Um exemplo são dois comentários, separados por alguns anos, que José Emílio Rondeau fez sobre dois discos de McCartney:

Talvez fosse disto que o velho Macca precisava para neutralizar a dormência criativa que o vinha atacando: cabeças diferentes, opiniões externas. Pete Townsend, Phil Collins, Carlos Alomar (guitarrista de Bowie), Eric Stewart (ex-10cc) e zilhões de artistas de primeiro escalão deram sua contribuição ao melhor disco de Paul desde… quando, mesmo? Com Eric Stewart repartindo a parceria em 60% das músicas e Hugh Padgham polindo uma produção ultra-moderna, Paul ressuscitou. Durará? (José Emílio Rondeau, Bizz 16, novembro de 1986, sobre o Press to Play, considerado por muitos o seu pior álbum)

Sete anos depois…

“O Paul McCartney quer virar Gipsy Kings”, disparou um adolescente fã de grunge, depois de ouvir pela primeira vez “Hope of Delivery”, uma das faixas “politizadas” do novo álbum do velho Macca. Talvez o menos ruim do últimos discos lançados por Paul em dez anos, Off the Ground é uma tentativa do ex-Beatle (êta, sombra difícir) de recuperar sua credibilidade artística/musical. Mas o máximo que consegue é ser apenas suportável ou parecido com alguém. Maybe next time… (José Emílio Rondeau, Bizz 93, abril de 1993)

Talvez um exemplo do que ela tinha de melhor e pior seja a seção a que o Marcus se referiu, a Porão, que em toda edição trazia duas bandas gringas e duas brasileiras ainda desconhecidas.

Na verdade, as gringas só eram desconhecidas porque não tínhamos acesso ao que se fazia lá fora. Mas até aí tudo bem, era esse o papel da revista em tempos de Telex. Da grande maioria das brasileiras, no entanto, nunca mais ouviríamos falar — porque aí era o negócio dos amigos, as canalhices a que me referi no texto original.

Eu fui um leitor assíduo da Bizz, já partir do número 1. É uma revista que ajuda a definir os meus anos 80. A última edição que comprei foi a de julho de 1989, quando ela mudou sua logomarca pela primeira vez: trazia Prince na capa e uma entrevista razoável com Paul McCartney. Mas eu já tinha deixado de comprá-la regularmente desde o ano anterior. A Bizz inicialmente me interessava porque me falava de coisas que eu não tinha ouvido, e nisso ela foi um guia cuja importância eu não posso esquecer; mas no fim dos anos 80 eu já tinha ouvido a música que ela cultuava, e não gostava dela.

A partir daí não sei mais nada sobre a revista. O documentário mencionado acima dá um resumo razoável sobre sua trajetória: a revista mudou de nome para Showbizz, decaiu, decaiu mais, deixou de ser publicada, voltou com o nome original. À medida que o rock ia perdendo espaço para outros gêneros, aparentemente ela se dirigia a um nicho cada vez menor e mais desinteressante, ignorando o resto da música que se fazia no mundo lá fora. Enquanto a Bizz olhava para porões em Manchester o país gestava uma revolução. Em Recife o mangue bit tomava forma, o tecnobrega se consolidava em Belém, e durante toda a sua existência a revista ignorou a evolução constante da música baiana, apenas para dar exemplos que conheço razoavelmente.

A internet jogaria a pá de cal sobre a Bizz, escancarando o seu papel de mero mensageiro para a colônia. Mas agora ninguém mais precisava de uma intermediária, a revista não tinha por que continuar existindo.

A geração formada pela Bizz parece trazer, ainda hoje, essas características. Você vai encontrar por aí muitos roqueiros decadentes lamentando o fim do ciclo roqueiro no país; dizendo que quando o sertanejo tomou conta das paradas no início dos anos 90 era resultado da crise estética da era Collor, ou então que o crescimento e enriquecimento da classe C jogou o padrão estético do brasileiro na latrina — como se aquelas bombas dos anos 80 fossem melhores. Mas se alguém olhar com um tico de atenção as paradas musicais dos anos 80, verá — especificamente nas paradas paulistas — a ascensão lenta e constante desse novo sertanejo, modernizado, maleável às influências musicais de seu tempo como qualquer outra. Enquanto o rock se esgotava em seu universo da classe média urbana, o sertanejo crescia oferecendo respostas musicais e líricas a um universo muito maior de brasileiros.

Disso eu sempre soube. Mas acho que faltava reconhecer que tudo isso, ao menos em parte, foi influenciado pela Bizz. Hoje ela pode ser lida neste site, que eu de vez em quando frequento quando bate alguma onda de saudosismo. Depois de velho, passei a gostar da revista de novo.

Livros, livros à mancheia

Um texto de Umberto Eco andou circulando internet afora esses dias:

É tolice pensar que você precisa ler todos os livros que compra, assim como é tolice criticar aqueles que compram mais livros do que jamais serão capazes de ler. Seria como dizer que você deveria usar todos os talheres, copos, chaves de fenda ou brocas que comprou antes de comprar novos.

Há coisas na vida das quais precisamos sempre ter muito, mesmo que vamos usar apenas uma pequena porção.

Se, por exemplo, considerarmos os livros como remédio, entendemos que é bom ter muitos em casa em vez de poucos: quando você quer se sentir melhor, você vai até o “armário dos remédios” e escolhe um livro. Não um aleatório, mas o livro certo para aquele momento. É por isso que você sempre deveria poder escolher entre várias escolhas.

Aqueles que compram apenas um livro, leem apenas aquele e depois se livram dele. Eles simplesmente aplicam a mentalidade de consumo aos livros, ou seja, consideram-nos um produto de consumo, uma mercadoria. Aqueles que amam os livros sabem que um livro é tudo, menos uma mercadoria.

Eco é o sujeito que entendeu que a internet deu voz aos imbecis, constatação reafirmada a cada nova dancinha de Tik Tok, a cada comentário analfabeto. Depois de ler esse texto, posso dizer que também permitiu a pessoas brilhantes como ele dizerem sem pejo algumas bobagens de vez em quando.

Claro que num mundo onde a mera posse de livros significa o ingresso instantâneo e não questionado numa certa elite intelectual,ou na impressão dela, um bocado de gente elogiou esse texto, e o compartilhou. Todo mudo ama livros, eu só não entendo por que as tiragens nacionais são tão pequenas.

Há alguns anos eu provavelmente seria um deles. Porque ainda gosto dos danados, me acostumei a eles, tenho um número razoável de exemplares e gosto de saber que eles estão lá. Tenho, inclusive, a vaidade de eventualmente mostrá-los, e já coloquei uma das paredes como foto de capa no Facebook, e de vez em quando coloco no Instagram os que se empilham já sem esperança em minha cabeceira. Em minha defesa posso argumentar que isso é só uma consequência, que eu gosto mesmo do objeto, gosto do papel, do cheiro de tinta, do cheiro do livro novo e do cheiro do livro velho, da sensação de virar a página, de recolocá-lo na prateleira e olhar para ele com orgulho — mas, para mim, nada disso supera a sensação de terminar de ler um livro brilhante, e é isso que, infelizmente, me diferencia de Eco.

Ele acusa as pessoas que leem um livro e então se livram deles de considerarem-no uma mercadoria, apenas. Isso é loucura elitista. É o contrário, na verdade.

Livros existem para transmitir conhecimento. A ideia de livros válidos apenas por sua posse, o fato de olhar a estante e se sentir bem por isso é que é vê-lo como mercadoria, porque não diz respeito ao seu valor real, e sim ao que ele representa, ao valor que o objeto adquiriu numa soceidade que fala mais do que lê. Mas seu valor real se mede depois que você decodifica aquelas letras mortas impressas em suas páginas. Na sua estante, eles só servem para mostrar aos outros que você tem ao menos um verniz de cultura, e que aparentemente reconhece o valor intrínseco daqueles objetos enfileirados. É aquela deturpação capitalista que faz uma primeira edição de um bom livro valer milhões a mais que um fac-símile.

Servem para dar trabalho, também.

Só ama de verdade esses objetos infernais quem tem poucos. Uma biblioteca não só acumula poeira, fuligem e, se você mora perto do mar, salitre que um dia você tem que limpar. Eles também se tornam invariavelmente a morada do Diabo. Guimarães Rosa não sabia de nada. Não é nos detalhes que o Diabo mora, é nas estantes — ou pelo menos é nelas que se maloca um saci escroto que impede que as estantes que você arrumou hoje, depois de dias maltratando suas costas, fiquem arrumadas por nem mesmo uma semana. Eu sou um cético, não acredito que livros tenham vontade e movimento próprios. Mas eu os vejo aparecendo do nada, e se multiplicando em outros lugares como gremlins endemoniados o tempo todo, o tempo todo.

Se você tem algum juízo, uma hora você se pergunta se isso vale a pena.

Como eu disse antes, já pensei assim, já tive esse orgulho. Os amigos de minha filha, quando vão lá em casa, sempre olham impressionados as paredes cheias de livros, porque bibliotecas já não são tão comuns assim, pelo menos fora do ambiente acadêmico, e mesmo nele. A mim não é tanto o volume que orgulha, mas sim sua variedade, o fato de ter sido construída aos poucos ao longo de algumas décadas, refletindo interesses bem diversos, de história a culinária, de vela a literatura húngara. Mas de uns anos para cá mesmo esse orgulho se desmilinguiu em tédio. Deve ser a velhice. E, talvez, a compreensão das bobagens que fiz na vida.

Quando a Amazon surgiu, ou melhor, quando finalmente tive dinheiro para comprar livros na Amazon, eu comprava dezenas de uma vez para economizar no frete.

É a pior coisa que se pode fazer, e me arrependo hoje de ter feito isso, tantas vezes. Essa é quase uma sentença de morte: você condena a maioria deles a não serem lidos nunca, porque antes de terminar o quinto ou sexto você já está comprando mais cinco, mais dez, e a leitura se transforma em uma espécie de derby de demolição, um atropelando o outro, exigindo primazia na leitura, gritando palavrões humilhantes para você, incompetente que não dá conta de tudo aquilo.

Para piorar, qualquer pessoa honesta sabe que existem quatro tipos de livros em suas estantes. Os que você já leu e não pretende reler; os que você leu e sabe que vai reler; os que você ainda não leu mas pretende ler; e, finalmente, aqueles que você não leu e a essa altura entendeu derrotado que não vai ler nunca, porque o tempo é cada vez mais escasso, é o trabalho gritando seu nome, a garrafa verde de cerveja flertando com você, a moça sussurrando passando a língua em sua orelha. O primeiro e o último tipo de livros são realmente desnecessários. Você os mantém por vaidade. É quase como ter mulher para usar ou para exibir: só broxas e enrustidos fazem isso, e Vinícius já avisava que você vai ver um dia em que toca você foi bulir.

Então, não, não tem como concordar com o nome da rosa. Nego diz isso é pra aparecer.